9.10.07

Cento e cinquenta pessoas reuniram-se numa vigília e ficaram duas horas em silêncio por Myanmar, a antiga Birmânia. Foi a melhor forma de protesto. Aposto que se abrissem a boca não iam saber explicar o que lá se passa. Amanhã estarão na rua outra vez pelo direito a comer massa com a boca aberta ou contra a matança das focas no Canadá. Todos os motivos são bons para aparecerem na televisão com o ar compungido de quem quer salvar o mundo mas a mãe não deixa.

7.10.07

Domingo, dia santo, dia de baptismo do elemento mais novo da família. Manhã cedo, meto-me no carro e inicio uma longa digressão que me levará à igreja onde o puto receberá a água benta que, supostamente, o oficializará perante Deus. Só que mal saio de casa, e talvez porque Ele conhece bem as minhas desconfianças em relação a este tipo de cerimoniais e à Igreja Católica no seu todo, prega-me uma partida que dispensava de bom grado. Estou eu ao volante da minha magnífica viatura capitalista comparada a preço popular quando decido mudar de faixa de rodagem. Olho pelo retrovisor do lado do pendura, nada de carros num horizonte próximo, por isso toca a passar para o lado direito. Eis senão quando ouço um ligeiro chiar de pneus e uma pancada seca. "Ora foda-se (que é o palavrão que mais uso quando alguma coisa me calha mal), isto começa bem. Um acidente às 9h30 da manhã era mesmo o que me estava a apetecer", repeti umas 10 vezes depois de conseguir controlar o carro e evitar um outro embate contra o passeio – sim, que o belo do Lancia ainda decidiu guinar ligeiramente só para testar a minha aptidão ao volante. Saio do carro, olho para a rapariga que teve o privilégio de chocar o respectivo veículo contra o meu e assusto-me. Não propriamente com a cara de pânico da moça, mas sobretudo com a pelugem que lhe enfeitava o pescoço. "Desculpe, a culpa é minha, não a vi, deve ter sido o ângulo morto", disse-lhe. "E agora, tenho que ir abrir a loja no Norteshopping ou ainda vou ser despedida?", responde. "Ora porra, vou ter que inchar o dinheiro do seguro para lhe pagar o conserto e queres ver que ainda vou ser responsável por mais um desempregado?", pensei. Lá chegámos à conclusão que éramos pessoas de bem e que não era preciso chamar a polícia para nada, nisto de sacar conclusões sobre pessoas que conhecem há menos de um minuto os portugueses são mestres, e fomos para um café preencher a declaração amigável. Foi a primeira vez que me dei a tal trabalho e fiquei entusiasmado ao perceber que há algo mais complicado de fazer do que mergulhar em apeneia durante cinquenta segundos. Meia hora depois despedimo-nos. "Qualquer coisa pode ligar-me à vontade", tranquilizei-a. "Desde que não me convides para sair, estás à vontade, telefona à hora que quiseres", sublinhei apenas para mim. Olho mais calmo para a porta do meu carro e vejo-a parcialmente metida dentro. Penso no que vou gastar e no trabalho que vou ter a tratar de tudo o que tem a ver com o seguro, desespero durante dois segundos e sigo caminho. Pouco depois de regressar à condução quase atropelo um cão que se atravessa à minha frente. Da próxima vez que for convidado para um baptizado que calhe em dia de trabalho, juro que não peço uma folga. Ele pode gostar de repetir a brincadeira e eu não estou para isso.

5.10.07

Enquanto não a ouvimos juntos, fica aqui para quando quiseres lembrar-te de nós.
Adoro-te, Paty!

O meu amor tem lábios de silêncio
E mãos de bailarina
E voa como o vento
E abraça-me onde a solidão termina
O meu amor tem trinta mil cavalos
A galopar no peito
E um sorriso só dela
Que nasce quando a seu lado eu me deito
O meu amor ensinou-me a chegar
Sedento de ternura
Sarou as minhas feridas
E pôs-me a salvo para além da loucura.
O meu amor ensinou-me a partir
Nalguma noite triste
Mas antes ensinou-me
A não esquecer que o meu amor existe.

Para ti, meu amor

2.10.07

Agora que estou a pensar novamente deixar de fumar (podem rebolar a rir os que já me ouviram dizer isto 547 vezes, pelo menos) decidi fazer um ligeiro teste de abstinência. Até agora, a coisa está a correr bem. Há cinco minutos que não pego num cigarro.
Acho que vou raptar um bebé de uma maternidade. Além de ser um bom teste à perícia e à capacidade de discrição, deve ser também óptimo para aliviar o stress. Depois devolvia-o, claro. Colocava-o num cesto junto a uma igreja qualquer ou à porta da Sociedade Protectora dos Animais. Fizesse o que fizesse, a julgar pelo veredicto do Tribunal de Penafiel, nunca iria para a cadeia. Só teria que tratar a criança com amor e carinho e mostrar-me muito arrependido. Esta última seria a parte mais complicada porque não sei fingir que choro. O resto com duas bofetadas na cara resolvia-se.
O pai do Presidente da República morreu e foi primeira página em quase todos os jornais. Quando for eu, só vou aparecer na secção de necrologia. A não ser que o meu Nelo vá para político.

1.10.07

Agora que já não me livro de arrepios de frio de dez em dez minutos e que sou obrigado a andar de meias em casa, figura ridícula, só me apetece dizer uma coisa: ora foda-se. Este deve ter sido dos Verões que me soube melhor, não sei muito bem explicar porquê. Aliás, há muitas coisas que gostaria de perceber e não consigo. Umas angustiam-me, outras fazem-me ter dúvidas , outras simplesmente divertem-me. Pena que não ache piada nenhuma ao que me tem assaltado a mente ultimamente, mas enfim...
O melhor é esquecer, são apenas divagações de quem não tem mais nada para fazer além de andar para aqui a escrever coisas sem sentido enquanto vai tentando percebendo o que quer da vida. Ou melhor, até que sabe. Resta saber é se está certo, errado, iludido, fodido ou simplesmente a tentar ver para lá daquelas barreiras que depois de ultrapassadas permitem o acesso a um caminho feliz e correcto.
Além disso, sou Gémeos.

Obs: aqui em baixo está uma bela de uma canção dos Faith No More. Não é a primeira, que aquilo é dose dupla. Basta esperar um bocadinho e surge logo a "Just a Man", que me acompanhou nas minhas férias durante dias a fio, sobretudo naqueles em que andei em Tallinn com um grupinho de pessoal de diferentes nacionalidades que junto se divertiu, riu, conversou de tudo e mais alguma coisa como se conhecesse há anos . Bebíamos muito também, mas isso agora não interessa nada. Isto quando me batem as saudades em alturas em que estou mais em baixo não é nada bom. Mas não há razão para preocupações extremas. Tenho demasiado amor à vida para sequer pensar em mandá-la à merda por um minuto que seja.

28.9.07

Os Xutos não são a melhor banda portugues. Eles são A banda. Os maiores, grandes. E então ao vivo metem nojo de tão bons.

A minha vontade de escrever neste blog tem sido tanta como a que tenho de me lançar numa aventura homossexual nos próximos cinquenta anos. Quase nenhuma, portanto, não vão mentes maldosas pensar que estão perante uma confissão apaneleirada da minha parte. Mas hoje resolvi abrir uma excepção. Não para um caso gay, mas apenas para comentar o que se tem passado no PSD, esse ilustre partido que, para nossa desgraça, já nos governou anos a fio e agora lidera a oposição, ou diz que o faz. Uma coisa é certa: qualquer que seja o vencedor das eleições directas de hoje, adivinho tempos difíceis para os sociais-democratas e, por arrasto, para os portugueses. Não vou falar da baixa estatura de Marques Mendes e da sua gritante falta de ideias e critérios ou das dificuldades de Luís Filipe Menezes dizer duas frases seguidas sem indirectas maldosas e de gosto duvidoso. Prefiro antes assinalar que um dos maiores partidos nacionais passará a ser liderado por um indivíduo que faz afastar da política e das mesas de voto um milhão de cidadãos cada vez que abre a boca. Ambos os candidatos são tão fracos, tão fracos, que me sinto envergonhado. E nunca votei PSD uma vez que fosse na vida. Acho que preferia gostar de homens, aliás.

26.9.07

Rute, cá vai mais um post plagiado do teu estaminé, com devida autorização prévia, claro está. Da próxima vez que nos virmos, lá para 2010, ofereço-te uma garrafa de vinho. Ou um belo de um pontapé na rótula esquerda, depois escolhes o que achares melhor para ti. Entretanto vamos falando, nem que seja para dizer absurdos conscientes, como de costume. Sabe bem. Ah, e assino por baixo o que escreveste. Porque, como já te comentei, o pior do casamento é a sensação de eternidade que deita a perder tanta coisa e faz desaparecer muito do bom que há numa relação bonita a dois se a coisa não for alimentada convenientemente. Digo eu, que já me casei, descasei e não quero ouvir falar em casamento tão cedo. O resto tu explicas bem. Obrigado, tiraste-me as palavras da boca.

Cá vai:

O «Correio da Manhã» revela hoje que a alemã Gabriele Pauli, militante da União Social-Cristã defende que o casamento deveria ser um contrato temporário prorrogável, ou seja, deveria terminar automaticamente ao fim de sete anos, podendo o casal renovar os votos se quisesse. Eu acho bem. Acho bem porque se acabariam as temíveis crises dos sete anos. Acho bem porque se acabariam – sem grandes dores de cabeça – os casamentos falhados. Acho bem porque haveria festa de sete em sete anos. E, sobretudo, acho bem porque o casamento a prazo iria obrigar a mais esforços, tal como os fazem os namorados. A possibilidade/o perigo de o outro não querer renovar os votos ao fim de sete anos poderia obrigar-nos a mais trabalho de casa, a menos discussões, a mais cinemas, a mais jantares, a mais flores, a mais cuidados. A mais sexo. A mais. Acho bem. Olho para mim, olho à minha volta e creio ainda mais nessa teoria. O casamento deveria ter prazo. Pelo nosso bem.
Serve o presente post para anunciar oficialmente que o meu Inverno começou hoje quando, pela primeira vez em muitos meses, cheguei a casa e vesti umas magníficas calças de pijama bem cardadas. E não, não tenho pantufas com patinhos ou outros animais ridículos.
Uma merda, é o que é. Estava a gostar tanto do calor e agora vem o frio lembrar-se que também é gente só para me chatear um bocadinho, o porco.

24.9.07

Para começar bem a semana II

Para começar bem a semana I

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

Florbela Espanca

23.9.07

A principal descoberta que fiz no IKEA foi... geleia de mirtilo. Quais móveis, camas, estantes e afins, o melhor mesmo foi esta pérola dos deuses que agora está disponível ao preço da chuva na bem gizada mega-loja do senhor sueco com um nome esquisito. Devo dizer que comprei uma embalagem na sexta-feira e já a empaturrei quase toda. Aconselho vivamente.
Enquanto escrevo este post, chego é à conclusão que a bela da compota deixa o teclado pegajoso, o que é uma porra.
Assisti a uma reportagem na RTP1 sobre o lançamento do filme "Fado" e fiquei com uma dúvida: o realizador é o Carlos Saura ou a Rosa Veloso? Digo isto porque tantas vezes apareceu na imagem um como o outro. O que é, aliás, normal quando se trata de uma peça da correspondente da estação pública em Espanha. Só lamento que a mulher nunca tenha tido a sorte de ser filmada em cheio durante um atentado da ETA. "Com imagem de Michael Gore, Rosa Veloso, a RTP no País Basco. Quer dizer, o tronco no País Basco, o resto do corpo espalhado algures por aí". Seria épico. E merecido.

21.9.07

Se os piropos agora não fossem quase ilegais, atrevia-me a dizer que a Julie Delpy é um doce que me apetecia saborear uma noite inteira. Mas além disto soar compleatamente estúpido e parolo, ela deve ter mais com quem partilhar serões.
Serve tal de prelúdio idiota para referir o seguinte: a menina resolveu lançar-se na aventura de dirigir um filme. Coincidência, ou talvez não, a fita chama-se "Dois Dias em Paris", o que me deixou logo desconfiado de que seria uma tentativa de chegar aos calcanhares dos brilhantes e absurdamente belos "Antes do Amanhecer" e "Antes do Anoitecer".
Ainda não vi o filme, por isso não posso dizer se é bom ou mau. Aquilo que me apetece para aqui desabafar é que se ela conseguir chegar aos calcanhares da cena que se segue, basta apenas isso, tiro-lhe o meu chapéu e ajoelho-me numa cama de pregos. É, simplesmente, um dos diálogos mais ternos e deliciosos que já vi. Como eu gosto: simples mas muito, mesmo muito, bem feito.
Diria lindo, mas depois acusam-me de andar lamechas.

19.9.07

Nine Inch Nails - The Hand That Feeds

Ah, e aprecio bastante estes senhores também. Agora chega que por hoje exagerei.