10.7.09

Crónica de um recém-desempregado XI

Quando ouço alguém dizer que só está desempregado quem quer pois o que não falta para aí é trabalho, fico com vontade de espetar uma faca do mato na jugular do autor de frase tão ignóbil. E de olhar para a a dita pessoa e vê-la a esvair-se em sangue até o coração deixar de bater.

Pronto, está bem que não seria assim tão sádico. Mas que dá nojo ouvir gente falar do que não sabe com ar de pregador barato, isso dá. Uns Paulo Portas em miniatura, vá. Menos bem vestidos, com dentes podres e lixo nas unhas, mas com igual dose de demagogia barata para dar e vender.

Devo dizer que já recusei duas supostas propostas de trabalho cujos salários mensais eram de... 500 euros.. Arrependi-me? Não. Porque a minha dignidade, pessoal e profissional, está acima de tudo.

Além disso, 500 euros para mim soariam a quase miséria. Não é presunção, é a simples realidade das coisas. Porque o tempo do idealismo já lá vai e hoje só olho para situações concretas com que me deparo. Vejamos, pago 350 euros de renda da casa, o que equivale a dizer que ficaria com 150 para os restantes gastos mensais, incluindo contas para pagar. Onde iria buscar o resto do dinheiro? Não seriam certamente os que se queixam que os desempregados têm culpa de estarem como estão que me iriam estender a mão. E algo que não quero com esta idade é voltar a estar dependente dos outros para viver.

Por isso, prefiro esperar por melhores ofertas, se é que elas chegarão, enquanto me cai na conta todos os meses o subsídio de desemprego – mesmo assim com um valor substancialmente inferior ao meu último salário. Afinal, a quantidade absurda que descontava todos os meses para impostos e Segurança Social está a ter algum proveito. Não me sinto a viver à conta do Estado, sinto que estou a usufruir daquilo que contribuí para o Estado enquanto resolvo por mim uma situação que o Estado nunca resolverá.

Um paradigma dos tempos modernos: o Estado protege-nos até certo ponto, mas deixa-nos a mão a solução dos nossos problemas, quaisquer que eles sejam. Não é perfeito, que não é, mas também não se pode considerar injusto. Injustiça, isso sim, é o Estado nunca averiguar as condições em que as empresas realizam despedimentos colectivos e quais os respectivos pressupostos. Nunca vi uma empresa, seja de que sector for, ser advertida ou condenada por ter decidido despedir sem que para tal houvesse justificação legal ou moral. O que num país como o nosso não me surpreende absolutamente nada.

Aliás, no dia em que o Estado proteger mais os trabalhadores que as empresas algo estará muito diferente em Portugal. Para melhor. Mas não acredito em ilusões baratas há muito. A culpa é da vida, que já me deu pontapés suficientes para deixar-me disso.

6 comentários:

m.paula disse...

Calma,Pedro,que o teu dia chegará.
bj

Pedro disse...

O meu dia chegará? Vou morrer em breve e ninguém avisa, é?

G. disse...

assino por baixo, o texto!
beijocas

John River disse...

exploradores haverá sempre, mas tens que ter confiança nos teus méritos e acreditar que a oportunidade certa chegará. Força aí camarada!

Mar disse...

Camarada, tens agora oportunidade para saíres deste país sem futuro. Já pensaste nisso? Olha que não te estou a mandar embora! :-)

m.paula disse...

Sabes bem o que quiz dizer.
Não merecias estar desempregado,mas melhores dias virão.
Até lá,muita força para navegares neste mar de águas turvas.
Ficabem bjs