20.3.08

O meu pai é o melhor do mundo...

... não é nada... O meu pai é o meu pai. O meu e ponto final. Quero lá saber do pai dos outros quando tenho o meu velhote dos cabelos grisalhos, teimoso, etc e tal...

Bem, não era preciso ser Dia do Pai para dizer o que te vou dizer, mas cá vai. Atrasado, mas bem de cá de dentro.

Só sei é que me orgulho de ti. De tudo que és, foste, me ensinaste e deste. E não estou a falar de bens materiais, mas sim do que me proporcionou ser aquilo que sou hoje. De me teres transformado numa pessoa para quem a vida apenas faz sentido se seguida num caminho de rectidão, que se orgulha de ter herdado de ti o gosto em saborear aquelas pequenas coisas que nos enriquecem tanto, que sempre te escutou quando dizias que isto só vale a pena se lutarmos arduamente por aquilo que pretendemos pois só assim retiraremos mais gozo do que conquistamos, de nunca aceitar facilidades, de ter sentido de responsabilidade, respeito pelos outros e orgulho do que somos sem pisarmos quem está ao lado. Dos conhecimentos que me passaste sem nada impores, porque dava, e ainda dá, um prazer dos diabos ouvir-te.

Sabes, lembro-me perfeitamente de quando me passeavas ao colo no corredor de casa para eu adormecer – é a memória mais antiga e terna que tenho de ti. De quando íamos ao futebol aos domingos à tarde, das férias no Algarve, de me ensinares a nadar naquele mar calminho e quente, dos gelados que comia ao teu lado na esplanada do bar da praia (aquele que tinha o camaleão enorme, lembras-te), dos jantares naquelas noites quentes com a mamã e a Inês, dos convívios com os amigos que consideras mais que família, dos livros que me passavas para a mão, de ler jornais espraiado no chão da sala, de brincar contigo no sofá, das caminhadas...

Também houve coisas menos boas. Mas com o tempo fui instruindo a memória a reter apenas o que de mais positivo a vida me proporcionou, retirando das experiências negativas ensinamentos úteis para o futuro. Porque tu e a mamã sempre insistiram que não vale a pena andar para aqui amargurado com nada.

À medida que fui crescendo, tive em ti alguém que me serviu de porto seguro e sempre respeitou as minhas opções, fossem profissionais ou pessoais. Aliás, quando passei por um dos momentos mais difíceis da minha vida, não vai assim há muito tempo, uma simples frase tua significou tudo. Tu tens esse dom, de em poucas palavras conseguires exprimir o mais importante. É um conforto, sabes? Por isso é que mais que muitas vezes me sinto abraçado sem que seja preciso tocares-me, basta o pouco que te sai da boca.

Agora, e daqui para a frente, interessa-me é continuar a olhar para a ti e ver aquele teu sorriso discreto que denuncia que estás bem sem precisares de acrescentar nada. Ver-te abrir a porta de casa e dizeres à mamã que “chegou o pirata” – nem sequer imaginas como isso me faz sentir por dentro. De saber que vamos abrir ainda muitas garrafas de vinho juntos. E de ter a certeza que um dia, espero que daqui a não muitos anos, vais acarinhar tanto ou mais ainda um filho meu. Será um gozo enorme vê-lo chamar-te avô enquanto o pegas nos braços.

Ah, e vamos à Galiza não tarda nada. Quer dizer, teimosos como somos vamos discutir o percurso umas quinhentas vezes e ainda acabamos é em França. Mas não faz mal. É disso que eu gosto e sei que gostas também, velhote.


A música é para ti. Uma das nossas favoritas.

5 comentários:

mik disse...

eh pá, o teu pai é parecido com o Cat Stevens (ou Yussuf)...

John River disse...

Não é que seja fã do Yussuf Stevens, nem que adore esta música, mas que ela tem o condão de me por sempre com lágrimas nos olhos, tem.

Maria Soledade disse...

Mais uma vez obrigaste-me a chorar.Neste dia tão especial não consigo conter a saudade daquele Pai que tenho a certeza que me amou como ninguém.Lembro-me do som do violino,dos banhos de mangueira no nosso quintal no regresso da praia, salpicados de muitos risos, muitas brincadeiras,e principalmente do seu jeito tão querido do nos mimar.
Foram 11 anos Pedro,só porque a senhora morte resolveu que onze curtos anos era tempo suficiente para ser amada.Meus Deus,tomara poder abraça-lo,dar-lhe muitos mimos e poder também escrever-lhe tal como tu fizeste com o teu,mas há muito que apenas me resta dar-lhe um beijo mas...sempre em silêncio!!

O teu Pai vai viver o amor de um filho teu sim,já que o meu nunca te pode dar um colinho...

Beijinhos miúdo



há muito que apenas me resta dar-lhe um beijo em silêncio.

Maria Soledade disse...

Como deves ter percebido houve "baralhada" no final do texto.
O Alzheimer não perdoa!...

Anónimo disse...

O mais bonito em vc:
Ter sentimentos que parecem não existir,mas que derrepente brotam com toda força do mundo e fazem agente refletir e ver como é bom ter gestos puros e verdadeiros.